Dizque, em um certo rio da Floresta dos Baiuka, havia uma criaturinha meio perdida, meio escondida e que morria de vergonha de ser o que era. Pois ele era filho da Mãe d’Água com o Pai d’Égua. A lenda de sua mãe era terrível. Diziam, que ao meio dia, onde houvesse uma fonte e um homem desavisado por ela passasse, a Mãe d’Água logo tratava de enfeitiçar o coitado com uma febre e dor de cabeça intensa. Certo dia, a Mãe d’Água cometeu um engano. Viu um vulto aproximar-se da fonte em que estava, mas olhou só da cintura pra cima, imaginou que era um homem e foi logo lançando o seu feitiço. Só, que não era um homem, era o Pai d’Égua! Aí, foi àquela história. O feitiço virou contra o feiticeiro! E a Mãe d’Água adoeceu de amores pelo Pai d’Égua. E foi aí, que essa pequena e estranha criatura nasceu. Naquele rio, onde nasceu o filho da Mãe d’Água e do Pai d’Égua, todos riam da aparência do menino. Menino? Não sei não. Cavalo? Pode até ser! Peixe? Vai saber! O chamavam de girino feinho. Realmente, ele era muito estranho. Ele decidiu deixar aquele rio para começar uma longa jornada. E foi em uma dessas incríveis viagens que ele conheceu um indiozinho aprendiz de pajé da tribo dos Baiuka chamado Erê. Então, ele foi logo pedindo: Mas, Erê havia conseguido deixá-lo menos triste, pois havia lhe mostrado que a sua aparência pouco importava para se ter amigos de verdade. Erê lhe apresentou Naiá, Peri, Totem, Mara, Miriti e o Pajé. Então, ele resolveu morar ali, em um laguinho na Floresta dos Baiuka cercado de amigos.
Cada dia era uma festa na Floresta dos Baiuka, e isso irritava o malvado Zilá. Então, ele teve uma daquelas idéias bem malvadas: resolveu botar fogo em toda a floresta e mandou chamar uma de suas mais terríveis aliadas, a Mula Sem-cabeça. A Mula cavalgou por toda floresta disparando fogo em todas as direções. As chamas cresciam a cada instante, consumindo tudo ao seu redor. Os animais fugiam procurando um lugar seguro, mas não havia! Os rios começaram a ferver, e suas águas de tão quentes evaporavam. Quando tudo parecia perdido, o Cavalo d'Água pela primeira vez tocou a terra e, ao tocá-la, todo o céu escureceu. Nuvens carregadas de chuva trovejavam a cada passo que o Cavalo d'Água dava sobre a terra. A chuva arriou forte quando ele começou a correr. Por onde passava, a chuva o protegia. Ele não podia secar, pois era da água; e por onde passava, o fogo apagava. A Mula Sem-cabeça fugiu assustada com tanta água. Os animais pulavam de alegria. O Cavalo d'Água olhava espantando e feliz com o que tinha feito. Mas a floresta havia ficado ferida. Então, Erê lhe disse: - Obrigado, amigo! Agora tu sabes que não és a metade de nada, e sim único como todo ser vivo da floresta, e tens teu valor! Precisamos que tu corras em nossas terras todos os dias, assim que o sol deixar o meio do céu. É, amiguinhos... É isso que acontece até hoje: depois do meio dia, quando o sol deixa o meio do céu, você pode ouvir o filho da Mãe d'Água e do Pai d'Égua correndo pela floresta amazônica. |