pai deguaEu nem consigo imaginar se a Mãe d’Água tivesse um filho com o Pai d’Égua... E tu, conseguirias?
Nem te conto, mano! Pois não foi que eles tiveram um filho! Mas, eu não sei como ele é e nem se puxou pro pai ou se puxou pra mãe. Mas será que tu sabes?

Dizque, em um certo rio da Floresta dos Baiuka, havia uma criaturinha meio perdida, meio escondida e que morria de vergonha de ser o que era. Pois ele era filho da Mãe d’Água com o Pai d’Égua.

A lenda de sua mãe era terrível. Diziam, que ao meio dia, onde houvesse uma fonte e um homem desavisado por ela passasse, a Mãe d’Água logo tratava de enfeitiçar o coitado com uma febre e dor de cabeça intensa.

Certo dia, a Mãe d’Água cometeu um engano. Viu um vulto aproximar-se da fonte em que estava, mas olhou só da cintura pra cima, imaginou que era um homem e foi logo lançando o seu feitiço. Só, que não era um homem, era o Pai d’Égua!

Aí, foi àquela história. O feitiço virou contra o feiticeiro! E a Mãe d’Água adoeceu de amores pelo Pai d’Égua. E foi aí, que essa pequena e estranha criatura nasceu.

Naquele rio, onde nasceu o filho da Mãe d’Água e do Pai d’Égua, todos riam da aparência do menino. Menino? Não sei não. Cavalo? Pode até ser! Peixe? Vai saber!

O chamavam de girino feinho. Realmente, ele era muito estranho.mula sem cabeça
Os patos o bicavam, os peixes borbulhavam e os sapos cochichavam.

Ele decidiu deixar aquele rio para começar uma longa jornada. E foi em uma dessas incríveis viagens que ele conheceu um indiozinho aprendiz de pajé da tribo dos Baiuka chamado Erê.

Então, ele foi logo pedindo:
- Ei, mano! Tu podes fazer um encanto pra que eu seja uma coisa ou outra e não a metade de uma e de outra?
Erê ficou sem entender, mas tentou ajudar o seu novo amigo, pois apesar de não concordar, queria deixá-lo feliz.
Desenhou na areia do rio alguns encantamentos, mas de nada adiantou. Ele era um encantado e como tal, ninguém teria poder suficiente para desencantá-lo.

Mas, Erê havia conseguido deixá-lo menos triste, pois havia lhe mostrado que a sua aparência pouco importava para se ter amigos de verdade. Erê lhe apresentou Naiá, Peri, Totem, Mara, Miriti e o Pajé. Então, ele resolveu morar ali, em um laguinho na Floresta dos Baiuka cercado de amigos.

 

Cada dia era uma festa na Floresta dos Baiuka, e isso irritava o malvado Zilá. Então, ele teve uma daquelas idéias bem malvadas: resolveu botar fogo em toda a floresta e mandou chamar uma de suas mais terríveis aliadas, a Mula Sem-cabeça.cavalo

A Mula cavalgou por toda floresta disparando fogo em todas as direções. As chamas cresciam a cada instante, consumindo tudo ao seu redor. Os animais fugiam procurando um lugar seguro, mas não havia!

Os rios começaram a ferver, e suas águas de tão quentes evaporavam. Quando tudo parecia perdido, o Cavalo d'Água pela primeira vez tocou a terra e, ao tocá-la, todo o céu escureceu. Nuvens carregadas de chuva trovejavam a cada passo que o Cavalo d'Água dava sobre a terra. A chuva arriou forte quando ele começou a correr. Por onde passava, a chuva o protegia. Ele não podia secar, pois era da água; e por onde passava, o fogo apagava.

A Mula Sem-cabeça fugiu assustada com tanta água. Os animais pulavam de alegria. O Cavalo d'Água olhava espantando e feliz com o que tinha feito. Mas a floresta havia ficado ferida. Então, Erê lhe disse:

- Obrigado, amigo! Agora tu sabes que não és a metade de nada, e sim único como todo ser vivo da floresta, e tens teu valor! Precisamos que tu corras em nossas terras todos os dias, assim que o sol deixar o meio do céu.

É, amiguinhos... É isso que acontece até hoje: depois do meio dia, quando o sol deixa o meio do céu, você pode ouvir o filho da Mãe d'Água e do Pai d'Égua correndo pela floresta amazônica.